
A cidade de Guben, outrora um centro industrial vital na Alemanha Oriental, tornou-se um estudo de caso contundente das consequências da transição abrupta de uma economia planificada para o capitalismo de mercado. Sob o regime socialista, Guben prosperou graças à sua indústria de fibras sintéticas, que garantia emprego pleno e uma rede de segurança social.
Com a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã, em 1990, a economia planificada que sustentava Guben foi desmantelada. A principal fábrica de fibras sintéticas, incapaz de competir com lógica de superconcentração de produção e de monopolização dentro dos diversos ramos de produção do Ocidente, foi fechada. Esse colapso industrial resultou em desemprego massivo, forçando milhares de moradores, especialmente os jovens, a emigrar em busca de oportunidades. A população de Guben caiu drasticamente e a cidade, hoje com cerca de 16.600 habitantes, enfrenta um severo envelhecimento populacional e a luta para encontrar um novo propósito econômico. As vantagens como terrenos mais baratos, que em tese atrairiam novos negócios, não foram suficientes para reverter essa espiral negativa, pois faltam trabalhadores jovens e qualificados, e a cidade carece da infraestrutura de ecossistemas inovadores encontrados em grandes centros.
A história de Guben é uma poderosa metáfora para o que pode ser chamado de “Gubenização do Capitalismo”. Essa expressão descreve a tendência de uma economia que, em teoria, foca exclusivamente na eficiência e no lucro de curto prazo, ignorando as externalidades sociais e ambientais, levando ao esvaziamento e à desvitalização de comunidades ou, em uma escala maior, de ecossistemas. Assim como Guben foi “esvaziada” de seu propósito econômico e de sua população em nome da eficiência de mercado, o capitalismo desenfreado pode esgotar recursos naturais e criar disparidades sociais insustentáveis, comprometendo o futuro.
Para conter a “Gubenização” do mundo será inevitavelmente necessário um retorno a uma abordagem mais planificada e centralizada, reminiscente, em certos aspectos, da lógica socialista que manteve Guben viável. É necessário se reconhecer que a maximização irrestrita do lucro e a busca pela eficiência de mercado a qualquer custo são insustentáveis no longo tempo. Será necessário, para tanto, planejar a transição energética global, direcionar investimentos massivos em tecnologias sustentáveis, garantir a segurança alimentar e a proteção de recursos vitais, e redistribuir a riqueza de forma a evitar a devastação social e demográfica. Assim como a União Soviética garantiu a subsistência de Guben via um projeto maior, o mundo precisará de um projeto global coordenado que priorize a resiliência ecológica e social sobre o lucro imediato, mesmo que isso signifique “custos” presentes, garantindo a existência e o bem-estar das gerações futuras.



