
A crença de que mulheres são intrinsecamente incapazes de entender a tecnologia – seja programando computadores ou, historicamente, dirigindo carros – é um mito propagandeado pela sociedade machista que vivemos, mas desmentido pela própria fundação da Era Moderna. O que a História mostra é que longe de ser uma “falha de capacidade”, trata-se de um processo de exclusão sistemática, que no caso da tecnologia, só se intensificou quando a programação migrou de um trabalho de baixo status, majoritariamente feminino, para um domínio masculino de alto prestígio e valor econômico após a década de 1980.
Este mito é refutado por duas figuras cruciais do século XIX.
Se o Romantismo de Lord Byron representava a rejeição da máquina, sua própria família e círculo social lançaram as bases do nosso futuro tecnológico:
- Ada Lovelace: A Lógica do Algoritmo
Ada Lovelace, filha de Lord Byron, é celebrada como a primeira programadora da história. Ela não apenas concebeu um algoritmo complexo para a Máquina Analítica de Charles Babbage, mas também vislumbrou o futuro do software. Lovelace percebeu que as máquinas não precisavam se limitar a números, podendo manipular símbolos como notas musicais e letras, expandindo a máquina de cálculo para o que hoje chamamos de computação universal. Essa visão, que ela chamou de “ciência poética”, uniu lógica e criatividade, provando que o pensamento feminino foi a fonte da ideia do código que transcende a matemática pura. - Mary Shelley: A Ética da Ficção Científica
Enquanto isso, em 1816, na residência de Byron, Mary Shelley concebeu Frankenstein ou O Moderno Prometeu, amplamente considerado o primeiro romance de ficção científica. O livro estabeleceu o arcabouço filosófico e ético para a inovação irresponsável. Ao caracterizar Victor Frankenstein como um criador arrogante que abandona sua criação, Shelley alertou o mundo sobre a responsabilidade ética do cientista. Hoje, o medo da tecnologia descontrolada é definido pela “Síndrome de Frankenstein”, mostrando que a filosofia de mitigação de risco para a Inteligência Artificial (IA) moderna nasceu de uma voz feminina.
A lição é clara: a exclusão não é uma consequência da incapacidade, mas uma perda para a humanidade. As mulheres não foram apenas as pioneiras na escrita de código (Programadoras do ENIAC nos anos 40) ou na validação mecânica (Bertha Benz como primeira piloto de testes), mas também estabeleceram o imperativo ético e a visão abstrata que guiam a tecnologia até hoje. Não há tecnologia sem mulheres, porque elas a criaram e, mais importante, definiram como ela deve ser usada.



