
Na surdina dos corredores políticos dos aliados do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, um projeto amargo vem sendo empurrado “goela abaixo” da população: a tentativa acelerada e profundamente questionável de privatizar a COPASA — a maior companhia de saneamento da América Latina, referência internacional em gestão de água e infraestrutura, lucrativa, estável e essencial.
Transformar esse patrimônio estratégico em mercadoria nas mãos de empresários que enxergam água apenas como cifra é mais que um erro: é um ataque direto à soberania do povo mineiro.
O processo é conduzido pelo (des)governo Zema com uma pressa incomum, que nem o discurso oficial de “modernização” consegue justificar. E quando a pressa vem acompanhada de manobras obscuras, silêncio da base governista, espionagem de parlamentares e tentativas de calar a população, a pergunta se impõe: a quem interessa entregar o controle da água ao capital financeiro?
A PEC do Silêncio: maracutaia tira o povo da decisão para facilitar a venda
A primeira peça dessa engrenagem é a famosa PEC 24/23, mais conhecida como PEC do Cala Boca, que removeu da Constituição mineira a exigência de referendo popular para privatizar a COPASA. Em outras palavras: tiraram do povo o direito de decidir o destino da própria água.
A aprovação ocorreu em ritmo de boiada — sessões atropeladas e na calada da noite, debates suprimidos e até um voto acrescentado após o encerramento da contagem, garantindo o quórum mínimo.
Se uma mudança constitucional precisa nascer de um truque de plenário é porque não tem legitimidade para caminhar de pé.
E tão logo essa PEC foi empurrada, o governo apresentou o Projeto de Lei 4.380/25, preparando o terreno final para privatizar a companhia — tudo em um processo em que a transparência deveria ser a regra, mas virou exceção.
Espionagem, monitoramento e táticas obscuras
O episódio mais alarmante dessa novela é o escândalo revelado pela deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), que presidiu uma das audiências públicas mais importantes sobre o tema.
Ela trouxe à tona o chamado “Projeto Bolt”, um estudo encomendado pela COPASA à consultoria internacional Ernst & Young por cerca de R$ 7 milhões.
O documento contém:
• Monitoramento de parlamentares e autoridades;
• Mapeamento de redes sociais e posicionamentos políticos de pessoas “envolvidas” com o processo de privatização da COPASA;
• Classificação de “ameaças” à privatização;
• Recomendações de discurso para convencer a população;
• Simulações de aumento de até 12% nas tarifas após a venda.
Trata-se de uma operação que extrapola qualquer “análise de mercado”. É vigilância política, financiada com dinheiro público, para pavimentar uma privatização que a população não pediu — e que, ao contrário, rejeita. O Tribunal de Contas pediu explicações. E a sociedade também.
A quem interessa privatizar o que funciona?
A COPASA não é uma empresa falida. Não é deficitária. Não é ineficiente.
Ao contrário: é uma referência latino-americana, premiada, lucrativa e com capacidade comprovada de investimento.
Então por que privatizar?
A história recente do saneamento no Brasil e no mundo dá a resposta: tarifas sobem, serviços pioram e regiões pobres são abandonadas. Em modelos privados, áreas lucrativas recebem atenção, enquanto periferias e zonas rurais ficam entregues à própria sorte. O lucro manda e o povo paga a conta.
Privatização da água não é modernização. É mercantilização de um direito.
O jogo eleitoral por trás da pressa
Há, contudo, um componente político ainda mais evidente: a corrida de Romeu Zema rumo à disputa presidencial de 2026.
Entregar a COPASA ao mercado é moeda de troca para atrair apoio financeiro de grupos empresariais, receber o aval de setores privatistas, ganhar visibilidade nacional dentro da direita liberal.
A pressa não é administrativa. É eleitoral.
A água de Minas virou trampolim político
Mesmo assim, durante as audiências públicas, como a presidida pela deputada Beatriz Cerqueira, ficou claro: o governo e a diretoria da COPASA (que se mostrou completamente ignorante quanto a performance e excelência da Empresa) não apresentou estudo técnico sério comparando o modelo estatal ao privado. Nenhum dado concreto que comprove benefício à população. Só discurso vago e narrativa de crise — enquanto documentos internos projetam aumento de tarifas e desmonte de garantias sociais.
Água é vida — e não mercadoria
A tentativa de privatizar a COPASA é o símbolo de um projeto maior: desmontar o Estado, entregar bens estratégicos ao mercado e condenar o povo a pagar mais por serviços essenciais.
Os mineiros já conhecem esse roteiro — e sabem que o final é sempre o mesmo: tarifas mais caras, qualidade pior, periferias negligenciadas e lucros voando para acionistas privados.
Nossa água é o ouro do século XXI. E esse ouro não pode ser colocado à venda em balcão de negócios políticos.
É hora de denunciar, resistir e defender o que é nosso.
A COPASA não pertence a governos de turno. Pertence ao povo de Minas Gerais.



