O PRESENTE REPETE O PASSADO: EM 1977 KURT MIROW JÁ PREVIA AS AÇÕES DA DIVISÃO XBOX

A história econômica do subdesenvolvimento, magistralmente dissecada por Kurt Rudolf Mirow em A Ditadura dos Cartéis, livro de 1977, revela um mecanismo perverso: grandes corporações não apenas dominam mercados, mas os “subsidiariam” propositalmente para eliminar concorrentes. Décadas depois, ouvimos a confissão em alto e bom som vinda de Redmond. No dia 12 de junho de 2026, durante uma participação no podcast Hard Fork, o CEO da Microsoft, Satya Nadella, cometeu o que podemos chamar de um “sincericídio corporativo” ao admitir que a divisão Xbox “não está monetizando este entretenimento. Na verdade, estamos subsidiando ele”. Traduzindo do dialeto do CEO para o português claro: Estamos praticando dumping.
Mirow já alertava: o dumping não é um acidente de mercado, mas uma arma de guerra calculada. No capítulo “O Jogo do Poder Econômico”, ele descreve como cartéis e monopólios utilizam preços predatórios – custeados por outras áreas da empresa – para queimar caixa, destruir a concorrência e, só então, ditar as regras. O que Nadella chama de “subsídio” é, na letra da lei econômica, a venda abaixo do custo para conquistar fatias de mercado.

O “Fundo de Combate” Digital
Mirow narra como a IEA (International Electrical Association) mantinha “Fundos de Combate” para financiar guerras de preços contra “outsiders”. A Microsoft opera exatamente assim. O Xbox sempre foi um “perdedor de dinheiro” crônico se analisado individualmente. Mas qual é o objetivo? Matar a concorrência no nascedouro.
Enquanto a Sony e a Nintendo precisam vender hardware e software com margens reais para sobreviver, a Microsoft joga em outro campo. O prejuízo do Xbox é abatido pelos lucros bilionários do Azure, do Windows e do Office. É o cross-subsidization denunciado por Mirow na página 168: “subsídio à operação de dumping em países ou setores diversos, com lucros de outros, até a destruição da concorrência”.
Quando Nadella diz que o YouTube ganha mais dinheiro com jogos do Xbox do que a própria Microsoft, ele não está apenas reclamando da própria ineficiência. Ele está revelando o plano: se a divisão não gera lucro, sua função é exclusivamente conquistar a base de usuários e destruir o ecossistema alheio, comprando estúdios (Activision, Bethesda) e queimando bilhões em assinaturas (Game Pass) que não se pagam sozinhas.

A Ditadura dos Consoles: a guerra de posição
Assim como os cartéis de lâmpadas (Phoebus) fixaram artificialmente a vida útil das lâmpadas em 1.000 horas para garantir vendas recorrentes, a estratégia de “subsidiar” o Xbox visa uma captura total da cadeia. Primeiro, elimina-se a competição pelo preço. Depois, controla-se o mercado.
Se o plano da Microsoft vingar e a Sony não conseguir acompanhar os preços predatórios do Game Pass, testemunharemos a consolidação de um monopólio digital. Mirow cita o cínico lema dos cartéis: “O consumidor seria melhor servido por monopólios bem estabelecidos”. É a utopia sombria de Redmond. O que sabemos é que na condição de monopólio o lucro viria do abuso ao consumidor, por exemplo, será que um Xbox como único console do mercado as novas versões do aparelho só iriam durar 1.000 horas de jogo como fez a Phoebus com as lâmpadas?

O Preço do “Subsídio»
No Brasil, essa guerra de preços tem consequências diretas. Enquanto as grandes corporações queimam dólares no exterior, a indústria nacional de games e tecnologia (desenvolvimento de software, hardware, lojas) definha, incapaz de competir com preços artificialmente baixos ou com a “cessão” de consoles subsidiados.
Para o trabalhador da base, o barateamento temporário do console ou da assinatura é a isca. O objetivo final é o estrangulamento do pequeno varejista, do desenvolvedor independente que não aceita os termos abusivos das “lojas” e a dependência total de um único ecossistema.
Nadella, ao reclamar que não consegue lucrar, assinou o atestado de óbito da concorrência leal em seu setor. Ele não está pedindo desculpas pelo fracasso; está avisando ao mundo que, se o Xbox continua ali sangrando dinheiro, é porque há um objetivo maior: a cartelização do entretenimento eletrônico.
O “barato” que o consumidor paga hoje virá em dobro na conta do monopólio amanhã.