O RENASCIMENTO DOS SINDICATOS NOS EUA

O auge da sindicalização nos EUA ocorreu nos anos 1950, quando aproximadamente 33% dos trabalhadores eram sindicalizados. Esse movimento se deu porque a população estadunidense viu a destruição da sua qualidade de vida causada pelo livre mercado desregulado, que provocou o crash da bolsa em 1929 e a recessão que se seguiu durante anos, e também porque as massas trabalhadoras estavam concentradas em grandes fábricas durante a industrialização do pós-guerra.
Com o sindicalismo em alta nos EUA, a partir de meados da década de 1950 até meados da década de 2010, os donos das grandes empresas privadas deram início a uma sistemática onda de ataques contra a organização coletiva dos trabalhadores, que seguem enumerados a seguir:

  1. Adoção de medidas para reduzir a atratividade do sindicato, visando torná-lo “desnecessário” na visão dos funcionários (modelo que dominou o setor de TI por décadas). Foi o caso das ofertas de salários e benefícios competitivos, como pacotes de saúde e ações corporativas.
  2. Uso de consultorias especializadas em desmantelar sindicatos (union busting), reuniões obrigatórias de dissuasão e demissões veladas de líderes da organização.
  3. Mudança de uma economia baseada na manufatura para o setor de serviços. Assim, o trabalho fabril tradicional (altamente sindicalizado) perdeu espaço para os escritórios.
  1. Empresas começaram a transferir suas cadeias produtivas para países com mão de obra mais barata. A ameaça de que “se o sindicato pressionar, a fábrica fecha e vai para o exterior” enfraqueceu drasticamente o poder de barganha dos trabalhadores. No fim, muitas empresas foram de qualquer jeito para o exterior.
  2. Responsabilização dos sindicatos por atitudes e falhas exclusivas das grandes empresas. Era dito na mídia que as indústrias iam para o exterior porque os sindicatos exigiam salários altos demais e muitos benefícios. Essa onda de ataques atravessou meio século, a ponto de que, em 2009, durante a crise do subprime (altamente relacionada com fraudes no setor imobiliário e financeiro), foi dito que a necessidade de ajuda financeira do governo à General Motors e à Chrysler ocorreu, em grande parte, devido aos altos salários e benefícios negociados pelo sindicato dos trabalhadores automotivos (UAW – United Auto Workers).
    O resultado de toda essa campanha corporativa é que, em 2009, apenas 48% dos americanos aprovavam os sindicatos e, no início de 2024, a taxa geral de sindicalização chegou ao piso de 9,9%. Se essa ideologia defendida pelos neoliberais ou os anarcocapitalistas (ancaps) estivesse remotamente correta, com a queda da sindicalização deveríamos estar vendo o ápice do crescimento americano e da qualidade de vida em toda a sua história. Mas a realidade aponta para o exato oposto: a importância e a força da economia norte-americana para a classe média vêm se reduzindo.

Mais uma vez, cientes e sentindo na pele a contradição do discurso desses grupos, os trabalhadores dos EUA voltam a se organizar. A aprovação da população norte-americana em relação aos sindicatos subiu para 71%, o maior índice desde a década de 1960. A partir de 2024, o movimento parou de cair e voltou a crescer — e isso é significativo. Devemos ficar atentos e acompanhar os dados de 2026 para verificar se essa tendencia se mantem. No campo da Tecnologia da Informação, parte desse crescimento vem das Big Techs, que vêm realizando grandes demissões em massa, levando os trabalhadores a se conscientizarem sobre a necessidade de proteção do seu emprego e da sua saúde financeira — algo que só se consegue com a luta coletiva no sindicato, por isso a importância da filiação.

Fontes:

Sobre o índice histórico de aprovação pública dos sindicatos (Pico de 71% atual vs. Fundo de 48% em 2009): Pesquisa Histórica Instituto Gallup: Support for Labor Unions in the U.S. Continues to Increase
Sobre a taxa mínima histórica de sindicalização de 9,9% em 2024: Dados Oficiais do Bureau of Labor Statistics (BLS) do Departamento de Trabalho dos EUA: 2024 Union Members Summary
Sobre a culpa atribuída ao sindicato UAW pela falência das montadoras na crise de 2009: Artigo que exemplifica a visão de institutos liberais e da mídia atacando o sindicato na época: The Obama Administration’s Auto Bailout Failure – The Buckeye Institute