O avanço tecnológico é importante para nossa sociedade, entretanto, sabemos que essa evolução também é usada contra a própria população para subjugar, controlar e vigiar o cidadão comum. Será que devemos acreditar quando Mark Zuckerberg diz que o Facebook vai se tornar uma “plataforma focada em privacidade”? Como lidar com o fato de que o site MyLife tem uma quantidade de informação reunida sobre você, em diferentes momentos de sua vida?
Woodrow Hartzog e Evan Selinger, traduzidos por Gabriela Leite, refletem sobre este conteúdo no texto intitulado “Opacidade: o direito de escapar à vigilância total”, do qual fazemos o seguinte recorte: “Celulares rastreiam nossos passos. Câmeras já reconhecem nossos rostos. Nada escapa às corporações: tudo é capitalizado. E se, diante desta distopia, ainda houver espaço para lutar pela delícia de nos perdermos na multidão?
Estamos constantemente expostos, em público. Mesmo assim, a maior parte de nossas ações ficará obscura. Você, por exemplo, se lembra dos rostos de estranhos que estavam na fila, da última vez em que foi à farmácia? Provavelmente não. Graças à memória limitada e aos costumes que nos ensinam a não encarar estranhos, essas pessoas certamente também não se lembram de você.
É isso que significa estar opaco. E nossa falha coletiva em perceber e valorizar essa ideia nos mostra o porquê de sermos tão mal sucedidos em debates sobre dados pessoais e vigilância.
A Opacidade constrói uma ponte sobre essa lacuna de privacidade, com a ideia de que as partes de nossa vida, que são difíceis de serem encontradas ou compreendidas, estão relativamente a salvo. É uma combinação da privacidade que temos em público com a privacidade dos grupos. A Opacidade é um escudo que pode nos proteger do Estado, das empresas e de bisbilhotice. E até que os cidadãos e legisladores abracem a Opacidade e se movimentem para protegê-la, sua liberdade estará em risco.
Compreender a Opacidade significa prestar atenção em como o espaço, o tempo e as limitações cognitivas das pessoas dificultam que os outros nos vigiem, ou que descubram coisas sobre nós.
Considere primeiro o espaço. Quanto mais longe as pessoas estão, mais difícil é enxergar, a olho nu, quem são e aonde estão indo. Normalmente, estamos visíveis apenas àqueles que estão por perto. Mas os dados de localização dos celulares podem revelar que informações demasiadamente pessoais estão disponíveis para todos que tenham os meios e motivações necessárias.
Agora, considere o tempo. As recordações desaparecem com o passar do tempo. Mas a internet tem uma memória impecável.
Por fim, considere as limitações cognitivas. Tecnologias de reconhecimento facial representam um enorme perigo à sociedade, porque podem ser usadas para superar restrições biológicas de quantos indivíduos conseguimos reconhecer em tempo real. Se elas continuarem a crescer e não for instituída uma legislação correta, podemos perder a capacidade de sair em público sem sermos reconhecidos pela polícia, vizinhos ou empresas.
Criar regulações fortes para a tecnologia será uma batalha sem fim, especialmente porque o reconhecimento facial já está consideravelmente difundido, tendo sido implantado em aeroportos para fazer o embarque mais rápido, e adotado em escolas para aumentar a segurança. Inclusive, já está sendo utilizado em acampamentos de crianças, para que os pais possam receber automaticamente as fotos em que seus filhos apareçam.
Ameaças à nossa Opacidade estão aumentando porque a tecnologia está tornando nossas informações pessoais simples e baratas de agregar, arquivar e interpretar — com crescimento substancial em análise preditiva*, também. A Opacidade é vital para nosso bem-estar por muitos motivos. “Dar espaço de respiro, para que atravessemos nossas rotinas sem tanto medo de sermos julgados, recebermos publicidade indesejada ou sermos desnecessariamente humilhados”.
A íntegra da matéria pode ser lida em https://outraspalavras.net
*A análise preditiva é a junção do avanço tecnológico, que inclui mineração de dados, machine learning, inteligência artificial e estatística, com o alto volume de informações que criamos diariamente.



