CENSURA NO CARNAVAL: A TENTATIVA DE “DOMAR” AS RUAS

Carnaval não é só festa: é termômetro social. Quando o povo ocupa a rua com música, fantasia e crítica, sempre aparece os paladinos da “ordem e bons costumes” dizendo que a festa popular não passa de “bagunça”, “ameaça”, “impróprio”, “sem controle”. Essa lógica é velha — e costuma ter alvo certo: cultura popular, periférica, negra, LGBTQIAPN+ e tudo que foge do padrão “comportado” que a burguesia acha aceitável.
A história do samba e das escolas de samba é, também, a história de uma disputa: de um lado, a invenção coletiva de um Brasil mais verdadeiro; do outro, a tentativa permanente de enquadrar, vigiar, punir, higienizar. O nome “censura” muda de roupa ao longo do tempo — ora é polícia, ora é moralismo, ora é projeto de lei — mas o impulso é o mesmo: tirar do povo o direito de existir em voz alta.

Quando samba era “caso de polícia”

No começo do século XX, a cultura negra urbana — batuques, rodas, religiosidades, festas — foi frequentemente tratada como problema de “ordem” e “bons costumes”. Essa repressão caminhava junto com o projeto higienista de cidade e com a criminalização da pobreza: a “vadiagem” aparecia como instrumento jurídico e policial para controlar quem não se encaixava na “ética do trabalho” imposta aos de baixo. A vadiagem foi tipificada no Código Penal de 1890, deixou de ser crime apenas em 1940, mas voltou no ano seguinte como contravenção na Lei de Contravenções Penais — um dispositivo historicamente seletivo, útil para “dar fundamento” a abordagens e prisões de pobres nas ruas. Nesse caldo, sambistas eram perseguidos, enquadrados e, muitas vezes, obrigados a negociar sua existência com autoridades. O samba não nasceu “permitido”. Nasceu insistindo.

Ditadura, redemocratização, fim da censura? Nem de longe!

Durante a Ditadura Civil-Militar, a cultura foi monitorada e a censura virou método. E o Carnaval — por ser massivo, popular e comunicativo — entrou no radar. As escolas de samba eram espaços de comunidade, sociabilidade e de narrativa histórica. Exatamente por isso, sofreram pressões e tentativas de controle. Daí o paradoxo: as escolas foram, ao mesmo tempo, alvo de repressão e espaço de resistência.
Um caso emblemático é o samba-enredo “Heróis da Liberdade”, da Império Serrano, no Carnaval de 1969: compositores foram pressionados e a letra sofreu interferência — a palavra “revolução” foi substituída por “evolução” para passar pelo crivo da censura.
E aqui vale dizer sem rodeio: censura não é só proibir. Censura também é forçar a trocar palavras, impor medo, criar “regras” nebulosas que fazem o artista se “auto cortar” antes mesmo de cantar.
Mesmo depois do fim formal da Ditadura, a tesoura não foi embora — só trocou de fantasia.
Em 1989, a Beija-Flor levou à avenida o enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, concebido por Joãozinho Trinta. A polêmica: uma alegoria com a imagem do Cristo como morador de rua foi alvo de decisão judicial após pedido da Arquidiocese do Rio. A escola contornou a proibição cobrindo a escultura com plástico preto e exibindo a frase “Mesmo proibido, olhai por nós!”, que entrou para a história justamente como denúncia da própria censura.

O recado desse episódio é forte até hoje: quando tentam esconder a crítica social, a própria tentativa vira prova de que a crítica era necessária.

Nos anos 90, a discussão da nudez nos desfiles levou a regras explícitas no regulamento, proibindo “genitália à mostra” (mesmo pintada ou decorada) — um tipo de controle moral que, na prática, também funciona como censura estética e de linguagem corporal.

Aqui a pergunta incômoda é: quem define o “limite” do corpo na arte popular? Quase nunca é a comunidade que faz o Carnaval; costuma ser uma mistura de pressão social, mídia e instituições querendo “limpar” o que é visto como excessivamente popular, carnal, escandaloso — ou livre demais.

Nos anos 2000, aparecem episódios ainda mais claros de censura direta a alegorias:

Em 2000 — imagem confiscada no barracão: a Unidos da Tijuca teve uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes confiscada por agentes da Polícia Civil dentro do barracão. Para evitar indiciamento por “atentado ao culto religioso”, a escola não usou a imagem.

Em 2004 — carros proibidos e cobertos com “Censurado”: na Acadêmicos do Grande Rio, no enredo “Vamos vestir a camisinha, meu amor”, dois carros alegóricos foram proibidos a pedido da Igreja Católica. A escola cobriu as alegorias com tarjas pretas e a palavra “Censurado”.

Em 2008 — alegoria do Holocausto barrada pela Justiça: a Unidos do Viradouro enfrentou decisão judicial que proibiu a exibição de parte de um carro alegórico sobre o Holocausto, sob pena de multa.

Repara no padrão: o Carnaval vira campo de batalha entre arte popular e “autoridades de plantão” — sejam elas tribunais, polícia, setores religiosos, interesses econômicos, “pânicos morais” ou todos juntos.

O moralismo impõe proibição sob o falso pretexto da “proteção”

Agora vem o recorte quente do nosso presente: restringir Carnaval e manifestações culturais com a bandeira da “proteção”, usando critérios elásticos (“conteúdo impróprio”) que viram ferramenta de perseguição seletiva.

Em Belo Horizonte, a Câmara Municipal aprovou em 1º turno, em 3 de fevereiro de 2026, o PL 11/2025, que restringe a presença de crianças e adolescentes em eventos carnavalescos e artísticos com conteúdos considerados “inapropriados”, incluindo também paradas LGBTQIAPN+. O texto prevê exigência de “classificação indicativa” na divulgação e estabelece multa (R$ 1 mil) e possibilidade de suspensão de autorização para organizadores.

O projeto foi assinado por Pablo Almeida e outros parlamentares (todos do PL) e teve 24 votos favoráveis em 1º turno, retornando às comissões por ter recebido emendas.

A crítica central é simples e potente: como aplicar “classificação indicativa” em rua, em cortejo, em manifestação viva? Quem decide o que é “impróprio”? Com qual régua? E por que isso costuma recair sempre sobre expressões populares, afro e LGBTQIAPN+? O texto menciona blocos afro e escolas de samba no escopo, ampliando o alerta de seletividade e discriminação.

Vamos chamar pelo nome: isso é disputa pelo espaço público.

Quando o Carnaval cresce e vira vitrine de demandas sociais — antirracismo, direitos das mulheres, direitos LGBTQIAPN+, trabalho digno, crítica política — a reação conservadora aparece como “defesa da família”, “defesa das crianças”, “moral e bons costumes”. É a mesma engrenagem histórica, só que com figurino novo.

No fim, quem “paga a conta” não é quem legisla: é o trabalhador e a trabalhadora que fazem o Carnaval acontecer — quem costura, toca, carrega som, vende água, limpa rua, organiza bateria, ensaia na laje, educa criança na brincadeira.

Criança precisa de cuidado? Sim. Mas cuidado não se faz com proibição genérica e moralismo seletivo. Crianças têm direito à cidade, à cultura e à convivência nos espaços públicos. Carnaval é tradição, isso implica reconhecer que ela só permanece forte se for experimentada na pele e transmitida adiante; por isso, a presença das crianças nos blocos e ocupações urbanas é fundamental. Se a preocupação fosse honesta, haveria caminhos melhores e mais eficazes de cuidado e proteção como o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo.

A rua é do povo (e o Carnaval também)!

O samba atravessou a história porque a organização popular e suas manifestações são mais fortes que a repressão. O Carnaval é o lugar onde o povo ensaia liberdade — e por isso é tão atacado. Quem quer uma cidade democrática não deveria temer o riso, o tambor, a fantasia e a crítica: deveria garantir direitos para que todos — inclusive as crianças — possam viver a cidade com segurança e alegria.

Censura no Carnaval nunca foi “só sobre Carnaval”. Sempre foi sobre quem pode ocupar a rua e quem deve se esconder. E o povo, quando tentam calar, responde do jeito mais perigoso para o autoritarismo: cantando junto.