ENQUANTO O DUMPING DA XBOX DEMITE 3.200, A SONY DECRETA O FIM DA MÍDIA FÍSICA

O fracasso da tentativa de monopólio da Microsoft não trouxe alívio ao mercado — abriu caminho para a Sony impor o futuro digital contra a vontade dos jogadores. Enquanto as gigantes se reorganizam, a deputada Erika Hilton mostra que a única resposta efetiva vem da política.
Entre 12 de junho e 6 de julho de 2026, a Microsoft protagonizou uma sequência que o escritor Kurt Rudolf Mirow teria incluído sem hesitação em “A Ditadura dos Cartéis”. Primeiro, o CEO da empresa, Satya Nadella, admitiu que a divisão Xbox vive de “subsídios” — leia-se: dumping predatório bancado pelos lucros do Azure e do Office. Depois, a nova chefe da Xbox, Asha Sharma, anunciou o maior corte da história da divisão: 3.200 demissões, quatro estúdios desmembrados e a confissão de que a empresa “perde 64 centavos para cada dólar investido”.

Mas a guerra de cartéis nunca tem apenas um front. Enquanto Redmond recolhia os cacos de sua aposta bilionária, a Sony — livre da pressão de um concorrente que queimava dinheiro infinito — movia sua própria peça. Em 1º de julho, o blog oficial do PlayStation anunciava o fim da produção de discos físicos para novos jogos, a partir de janeiro de 2028. Jogos vendidos em lojas físicas existirão, mas serão apenas códigos digitais dentro de caixas vazias.

O mercado, ao contrário do que pregam os manuais neoliberais, não se autorregulou para proteger os consumidores vítimas da perda da mídia física, muito menos os trabalhadores vítimas das demissões. A dita autorregulação do mercado protegeu somente os acionistas e CEOs da Sony e da Microsoft. Pior, ela apenas redistribuiu o poder entre os cartéis. E a resposta, como era de se esperar, não veio dos consumidores individualmente, mas de uma parlamentar que entendeu a gravidade do momento. No último dia 3 de julho, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou no X (antigo Twitter) encaminhamento do caso à Secretaria Nacional do Consumidor. É a demonstração prática de que, diante da ditadura dos cartéis, a política não é opção — é necessidade.

Com a Microsoft ensanguentada por seu próprio dumping, a Sony viu a janela se abrir. Em vez de competir oferecendo mais direitos ao consumidor, fez o oposto. O comunicado do diretor sênior de comunicação da Sony Interactive Entertainment, Sid Shuman, tenta vestir a decisão de modernidade.
A narrativa é a da “mão invisível” do mercado, que supostamente apenas segue as preferências do público, mas a realidade desmente o marketing. A Sony continua vendendo — e cobrando mais caro — por consoles equipados com leitor de mídia física.

Na questão do fim da mídia física, mais grave é o problema da posse. O limbo jurídico e legal sobre essa matéria nos coloca, na prática, em uma situação em que jogos digitais não são vendidos; são licenciados. Sendo a licença fornecida por empresas de fora do Brasil, a empresa se reserva o direito de revogá-la a qualquer momento, sem aviso prévio e sem reembolso. Com a eliminação dos discos, a loja digital de cada fabricante se torna um monopólio absoluto sobre o consumidor que adquiriu seu console. Se você comprou um PlayStation, só pode comprar jogos na PlayStation Store, pelo preço que a Sony decidir, com as condições que a Sony impuser.

É nesse cenário que a atuação da deputada Erika Hilton se torna não apenas relevante, mas indispensável. Dois dias após o anúncio da Sony, Hilton foi às redes sociais anunciar o encaminhamento de denúncias à Secretaria Nacional do Consumidor. Seu comunicado é um primor de clareza e visão sistêmica, começando pelos problemas imediatos e chegando ao horizonte sombrio que se desenha.

O olhar de Hilton vai além do presente. Ela conecta os pontos que unem Microsoft, Sony e Nintendo em um mesmo movimento: “A tendência atual, com os movimentos monopolistas da Microsoft, as práticas anticonsumidores da Sony e os ataques judiciais da Nintendo contra quem preserva os arquivos de jogos que não estão mais disponíveis para compra, é de um futuro em que os jogadores não terão mais seus próprios acervos de jogos”. Essa é a descrição precisa da cartelização total do entretenimento eletrônico. Assinaturas com mil níveis de preço, anúncios no meio dos jogos e a venda casada de console e serviço são exemplos dessa política. Enquanto isso, o consumidor permanece sem possuir absolutamente nada. Segundo Hilton no dia 8 de julho, o PROCON-SP manifestou-se oficialmente, reconhecendo que os consumidores de jogos físicos e digitais do PlayStation têm direitos garantidos de compartilhar, vender, emprestar e usar livremente o produto, com a proibição expressa de novas restrições impostas após a venda ou a licença.

Embora, sob a ótica dos discursos dos liberais e da extrema-direita atual, pareça uma grande ironia o Estado e a esquerda, na figura de Erika Hilton, protegerem a propriedade privada dos gamers, a verdade é o exato oposto: é sempre o Estado quem protege tudo aquilo que se pode chamar de propriedade privada, e quem costuma tomar as propriedades são justamente entidades do mercado como, por exemplo, os bancos e, agora, a Sony no caso dos games. Esse “tumulto” é parte do projeto para confundir o povo sobre quem são seus reais inimigos e amigos. Não se confunda.