UM BRASIL DE ENDIVIDADOS

De acordo com dados divulgados pelo Serasa Experian, no último dia 11/07, o número de pessoas com contas atrasadas bateu novo recorde no Brasil e 66,6 milhões de brasileiros estão inadimplentes. Este é o maior índice desde 2016.
A quantidade de inadimplentes por estado, citando alguns estados para ilustrar, é a seguinte: São Paulo, 15,6 milhões de negativados; Rio de Janeiro, 6,7 milhões; Minas Gerais, 6,3 milhões; Bahia, 4,1 milhões e Paraná, 3,5 milhões.
Pegando o problema por outro ângulo, a comparação do valor da cesta básica entre junho de 2022 e junho de 2021 mostrou que todas as capitais tiveram alta de preço, com variações que oscilaram entre 13,34%, em Vitória, e 26,54%, em Recife. No ano de 2022, o custo da cesta básica apresentou alta em todas as cidades, com destaque para as variações de Natal (15,53%), Aracaju (15,03%), Recife (15,02%) e João Pessoa (14,86%).
Devido à força do sistema financeiro, o superendividamento da população é um tema que não entra na pauta do debate público brasileiro, todavia o problema é grave e o sofrimento de suas vítimas é uma realidade que atormenta milhões de brasileiros. A fúria de explorar até a última gota não tem limites e o Projeto de Lei (PL 4188/2021), que tramita no Senado, apresentado pelo governo Bolsonaro e já votado na Câmara, é um exemplo absurdo desta realidade.
Se aprovado em definitivo, o PL4188 permitirá aos bancos penhorar e se apropriar até mesmo do imóvel em que residem as famílias devedoras. Esta perversidade social proposta por este PL tem forte efeito desestabilizador, e há quem analise que tal medida poderá fazer surgir no Brasil uma bolha imobiliária muito semelhante à que desencadeou a crise financeira de 2008, nos EUA.
Na visão do professor da Universidade de Brasília (UnB) e diretor do Instituto por Finanças Funcionais ao Desenvolvimento (IFFD), David Deccache, o fim do sufoco financeiro de dezenas de milhões de pessoas exige esforço financeiro do Estado. O estoque de dívidas precisa ser reduzido por meio de ação política. Deccache defende que os devedores de menor poder aquisitivo, os quase 80 milhões inscritos no Cadastro Único dos programas sociais, deveriam ter suas dívidas assumidas pelo Tesouro, que deveria zerá-las e convertê-las em dívida pública. Para os demais devedores, é preciso políticas que levem os bancos públicos a comprar as dívidas com deságio, consolidá-las e dividi-las em parcelas compatíveis com o orçamento familiar – a juros forçadamente reduzidos.
Uma coisa é certa, sem luta por melhores condições de vida, de salário, pelo fim da carestia, por emprego, reivindicações entre tantas outras fundamentais, a realidade será a de aprofundamento do caos.
Para mudar esta realidade precisamos de mobilização popular.