
A Uber chegou ao Brasil em 2014 e transformou as relações de trabalho no País. Os trabalhadores, milhões de desempregados, passaram a ser tratados como “prestadores de serviço”, porém, sem direitos trabalhistas ou proteção social, aprofundando a realidade de um mercado já marcado pela informalidade, em que toda a responsabilidade e os riscos da atividade econômica são transferidos para o trabalhador, enquanto as empresas se eximem de qualquer obrigação.
Os dados evidenciam como a “uberização” reforça desigualdades estruturais. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, 77% dos trabalhadores por aplicativos têm menos de 40 anos, sendo 48,4% entre 25 e 39 anos. No recorte racial, 59% dos entregadores se autodeclaram pretos ou pardos, revelando que o modelo afeta diretamente grupos historicamente marginalizados.
Outro obstáculo, menos visível para os trabalhadores, mas essencial para a manutenção desse sistema, é o controle algorítmico. O uso de algoritmos serve para organizar e distribuir as demandas, determinando, por exemplo, quem recebe trabalho e quanto irá ganhar, mas também para limitar a mobilização coletiva.
Esse controle invisível permite às plataformas manterem seu modelo altamente lucrativo, sem precisar lidar com demandas trabalhistas. O algoritmo, longe de ser um mediador neutro, funciona como ferramenta de dominação, regulando o acesso ao trabalho e minando qualquer forma de resistência. Não existe “neutralidade” na tecnologia quando ela está a serviço do poder econômico, no caso da uber, de patrões que sequer estão no País.
A reação a esse cenário de exploração, no entanto, está vindo das ruas, sendo o movimento em torno da Economia Solidária Digital um exemplo desse “caminho alternativo”, pois trata-se de um mecanismo pautado na autogestão, cooperação e governança democrática. Neste sentido, experiências no Brasil e no mundo demonstram que é possível construir plataformas coletivas, mas sua expansão ainda enfrenta desafios econômicos, tecnológicos e regulatórios. Para que essas iniciativas prosperem é fundamental a implementação de políticas públicas, financiamento adequado e um marco legal que reconheça suas especificidades.
O desafio que se apresenta para os trabalhadores é o de consolidar modelos que coloquem a tecnologia a serviço da coletividade, garantindo soberania digital e dignidade no trabalho, de modo a fortalecer a autonomia dos trabalhadores e garantir relações de trabalho mais justas. Afinal de contas, a tecnologia não precisa ser uma ferramenta de exploração e controle. E esta reflexão sobre a tecnologia vale não só para os trabalhadores uberizados.



