
Para sermos justos, as práticas descritas abaixo não são exclusivas da Sony PlayStation. Contudo, o papel relevante da marca, há décadas na liderança deste mercado, impõe responsabilidades também junto aos consumidores da Sony e do mercado de games como um todo.
A “arapuca” a começa ser armada no final da década de 1990, quando os jogos da Sony começam a classificar as mídias físicas — que contêm jogos para o seu console – como uma licença e não como uma venda. Naquele momento, não havia diferença prática em chamar o jogo (em posse do jogador) de “vendido” ou “licenciado”, pois a mídia física (CD, DVD e, mais tarde, Blu-ray), permitia ao detentor todas as liberdades da sua posse, como vender, trocar, alugar e até mesmo doar. Mas havia a armadilha da palavra “licença”, previamente dando aval à Sony PlayStation para fazer o que melhor lhe interessasse quando isso fosse possível.
Passados mais alguns anos, a evolução da internet permitiu comprar e vender jogos online. Entretanto, aproveitando-se da falta de clareza jurídica e legislativa no mundo no que tange à venda de jogos digitais na década de 2000, a implementação da venda online foi da seguinte forma: a Sony vende, você compra e, pronto: todos aqueles direitos que você tinha nos jogos físicos, nessa modalidade, não existem mais! Como a mídia física e a mídia digital passaram a existir em paralelo durante mais de uma década, quem cobrava os mesmos direitos nas mídias digitais que nas físicas era taxado de “inimigo da Sony” ou de “não entender a complexidade do mercado de games”. O argumento sempre foi o de que “a Sony te dá a opção de comprar a mídia física”. Aqueles que se diziam entendedores da complexidade do mercado de games acabaram por defender a própria perda de direito.
As últimas peças da arapuca estão sendo colocadas nestes dias de 2026, quando a SONY anunciou que, em 2028, não irá mais vender jogos em mídia física para o PlayStation. Agora, aquela inocente palavra “licença”, que passou despercebida e até defendida por mais de 20 anos, mostra o seu peso aos jogadores. Neste mesmo ano de 2026, quando quatro residentes da Califórnia entraram com um processo contra a Sony alegando, dentre outras coisas, que sua loja digital usa o termo “comprar”, os advogados da Sony disseram que “consumidores razoáveis” não seriam induzidos ao erro quanto à natureza das compras digitais na PlayStation Store, deixando claro o conflito de interesses entre a Sony e os jogadores.
Mais uma vez, é momento exigir que os jogos digitais sejam regulados pelo governo – que é sempre quem garante os direitos do povo no conflito de interesses contra grandes empresas –, e exigir a garantia dos mesmos direitos dos jogos distribuídos em mídia física. Vamos a luta!


