Gustav Klimt

O simbolismo e a sensualidade da obra de Gustav Klimt

Em meio ao fervilhante cenário artístico e intelectual da Viena do início do século XX, Klimt expressou a calmaria que reinava entre a burguesia no período que precedeu a tempestade da Primeira Guerra Mundial. Portador de uma arte subjetiva intensamente sensual e erótica, introduziu o colorido simbolista no cenário artístico vienense, tornando-se assim uma ponte para o surgimento da vanguarda expressionista.
Rompendo com o formalismo acadêmico que reinava entre a sociedade vienense da última década do século XIX, Gustav Klimt buscou de forma pioneira, integrar as belas-artes às artes aplicadas, antecipando a busca pela “arte total”, que permearia toda a busca dos construtivistas russos, da “Bauhaus” alemã e do “De Stijl” holandês.
Naquele período, Viena era o centro das principais conquistas artísticas, científicas e intelectuais da Europa. Enquanto Friedrich Adler desenvolvia o que ficou conhecido como austro-marxismo, e impulsionava a política da esquerda socialista que se opunha à política centrista e revisionista de Kautski no Partido Social-Democrata Alemão; Ludwig Wittgenstein desenvolvia os rudimentos da filosofia do positivismo lógico; Sigmund Freud assentava as bases da nova ciência da psicanálise, e Arnold Schoenberg estabelecia uma nova teoria musical baseada em uma escala dodecafônica.
Um jovem promissor
Nascido em 14 de Julho de 1862 em Baugarden, Gustav Klimt era o segundo de um a família de sete irmãos. De origem humilde, desde cedo teve contato com as artes. Sua mãe sempre quis ser cantora de operetas, mas devido à precária economia da numerosa família, teve seus sonhos frustrados. Entretanto, ela estimulou desde sempre a sensibilidade musical em suas crianças. Seu pai por outro lado, era um ourives meticuloso, fato que exerceria grande influência no desenvolvimento artístico de seu filho Gustav. Apesar das dificuldades econômicas, o núcleo familiar dos Klimt era bastante sólido, e após perceberem o interesse que seus três filhos homens haviam manifestado para as artes, não hesitaram em estimulá-los. Assim, Gustav, com apenas 14 anos conseguiu ingressar com bolsa de estudos na Escola de Artes Aplicadas de Viena devido à excelência técnica de seu desenho. Diferentemente de uma Academia de Belas-Artes tradicional, a Escola de Artes Aplicadas desenvolvia um ensino artístico inovador para a época, integrando a formação das Belas-Artes às disciplinas técnicas, como artes gráficas, ourivesaria, desenho industrial, cenografia, arquitetura e decoração de interiores. Essa orientação era resultado dos anseios da burguesia liberal vienense de fazer frente à decadente aristocracia, impondo sobre ela sua própria visão artística com a promoção de edifícios e obras de arte. Apesar do espírito progressista, o plano de ensino da escola seguia os moldes tradicionais, e Gustav se submeteu à rígida disciplina da escola, que focava sempre a representação naturalista do mundo.
Klimt dominava o desenho de maneira tão impressionante que chamou a atenção de todos seus professores. Certa vez ao declarar ao diretor da escola sua vontade de tornar-se professor, ele respondeu "Professor de desenho? Você deve tornar-se é pintor!". Assim, o jovem Klimt foi conduzido ao departamento de pintura onde começou a receber instruções do pintor historicista Ferdinand Laufberger. Admirado com o trabalho do artista, Klimt logo o viu como um mestre e aspirava ser seu sucessor. Sem hesitar, entregou-se então à minuciosa formação acadêmica baseada nos cânones renascentistas e barrocos italianos. Esses anos de estudo acadêmico convencional ficaram profundamente enraizados na base de sua formação artística, que apesar das evoluções e transformações, manteriam sempre a minúcia da ornamentação e o cuidadoso tratamento da figura humana.
Os primeiros trabalhos
Ainda na escola, Klimt fez amizade com Franz Matsch, com quem, por indicação dos professores, realizava trabalhos remunerados fora da escola. A dupla realizou grande quantidade de projetos mas consolidou-se apenas em 1977 quando juntou-se a eles Ernst, o irmão mais novo de Klimt. Em pouco tempo começaram a receber encomendas mais importantes, como a pintura do teto do Balneário Kurhaus, a decoração do Teatro de Reichenberg e um conjunto de 4 pinturas murais simbolizando a poesia, a música, a dança e o teatro, para decorar os ambientes do Palácio Sturany.
Nesta época chegou a figurar entre seus clientes, até mesmo o rei da Romênia, Carol I. O trio rapidamente ganhou notoriedade entre a burguesia, realizando grande número de projetos decorativos no estilo historicista por toda a Áustria. A consagração definitiva do trio se deu após concluírem uma encomenda para o Burgtheater vienense, projeto financiado pelo próprio imperador Francisco José I. Receberam aí a Cruz de Ouro ao Mérito por sua importante atividade artística. Em 1890 receberam sua encomenda mais ambiciosa. Executar as pinturas do hall do Museu de História da Arte, destinado a abrigar a coleção imperial de pintura e escultura. Eles então conceberam o projeto de 40 painéis representando a história do desenvolvimento da arte desde o Antigo Egito até a Renascença italiana.
Destes, onze deles foram pintados por Gustav. Nestas pinturas já é possivel ver seu desenvolvimento para um estilo próprio, distanciado do relato historicista, introduzindo elementos contemporâneos como o retrato de uma vienense contemporânea sua na tela "A jovem rapariga de Tânagra", ao invés das tradicionais imagens clássicas idealizadas. No mesmo ano, Klimt recebeu o chamado Prêmio do Imperador, por uma pintura encomendada pela prefeitura um ano antes. Estas condecorações o consagraram a partir daí como um artista da moda. Em 1892, o casamento de Ernst com a filha de um burguês permitiu aos irmãos Klimt o ingresso nas rodas da alta sociedade vienense. Assim Gustav Klimt conheceu Emilie Flöge, então com 17 anos. Os dois estabeleceram uma amizade que duraria até o final de seus dias.
A passagem ao simbolismo
Ao mesmo tempo que o trio de artistas alcançava o auge de sua popularidade, uma núvem negra pairou acima da família Klimt. Entre julho e dezembro de 1892, morreram o pai e o irmão Ernst . Gustav assumiu então a responsabilidade de sustentar além da sua família, também a cunhada e a sobrinha. Estas mortes tiveram um impacto profundo sobre Klimt, que deprimido, parou de pintar por vários meses. Neste período de reflexões, tiveram grande impacto sobre ele, diversas exposições que foram realizadas em Viena, sendo exibidas obras de pintores ingleses, escoceses e belgas além da Secessão de Munique, sobretudo as obras do simbolista belga Fernand Khnopff e do alemão Franz von Stuck. Além destes, tiveram profundo impacto sobre as obras de Klimt, os quadros dos alemães Max Klinger e Max Liebermann, do suíço Arnold Böcklin e do escultor francês Auguste Rodin. Em 1894, sua crise culmina com a ruptura da parceria com Matsch e a reformulação completa de seu estilo.
Já é característica dessa faze de transição telas como "A tragédia", "Amor" e "A Escultura", todas já impregnadas com estética simbolista e apresentado as características que seriam marcantes em toda a sua obra a partir dalí, representações naturalistas de figuras femininas, imagens planas, imensa profusão de elementos decorativos abstratos e a presença marcante do dourado. Neste mesmo período, Klimt trava contato com o Hermann Bahr, famoso crítico de arte que havia viajado para a Áustria com o intuito de atualizar a arte vienense colocando-a no patamar dos movimentos modernistas que pipocavam pelo resto da Europa.
A Secessão de Viena
Em 1987, com o objetivo de modernizar a Casa dos Artistas, uma poderosa instituição conservadora que era dona da única sala de exposições importante de Viena, Klimt formou juntamente com outros artistas a Associação Austríaca de Artistas Figurativos. Esta, em represália, expulsou de seus quadros, todos os artistas que fossem membros da nova instituição. Este foi o estopim para a fundação da Secessão vienense. Este grupo, que rapidamente obteve grande importância no cenário artístico de Viena, agrupou logo de início, cerca de 40 pintores que romperam com a Casa dos Artistas. Os objetivos principais desse grupo era a exposição dos trabalhos de jovens pintores não convencionais, mostrar ao público vienense a obra dos melhores artistas estrangeiros e a divulgação das novas tendências artísticas por meio de uma revista própria, a "Ver Sacrum", ou "sagrada primavera", em referência a um antigo ritual romano.
Presidido por Klimt, o grupo apresentava propostas estéticas bem definidas, equiparando trabalho de pintores e artesãos, fato que atraiu arquitetos, desenhistas, ilustradores e tipógrafos para o grupo. Poderia-se afirmar que o Secessão apresentava de forma embrionária, os anseios de unificar as belas-artes e as artes aplicadas. Ambição que se desenvolveria plenamente somente anos mais tarde, com grupo modernista "De Stijl", de van Doesburg e Mondrian, e posteriormente, na "Bauhaus" de Walter Gropious.
O Secessão, em 1899 triunfou definitivamente sobre a Casa dos Artistas, após obter o apoio do imperador e de personalidades importantes da alta burguesia, obtendo imenso sucesso em sua primeira mostra e podendo assim fundar seu próprio salão de exposições.
O embate com a arte oficial
Nesta época, desfrutando de maior liberdade artística, as pinturas de Klimt sofrem nova metamorfose, e em 1897 o pintor inicia sua fase mais combativa, de enfrentamento com os padrões estéticos oficiais. Apresentou os esboços de "Filosofia" e "Jurisprudência" para os afrescos da Universidade de Viena. A tela causou grande indignação devido ao excesso de nus femininos e às cores escuras da representação alegórica, mesmo assim, Klimt ignorou as críticas e deu continuidade ao projeto original. Nesta etapa de sua carreira, já disseminava-se em suas obras os nus femininos, representados nas mais diversas formas, como a sereia, a esfinge, a nereida, Athenas, Eva, Salomé ou Judith. Na tela "Nuda Veritas", representando uma mulher inteiramente nua, chocava o fato de Klimt não ter suprimido os pelos pubianos da figura, um grande tabu na época. Acima da imagem havia o texto, considerado uma declaração de guerra à arte acadêmica: " A cada época a sua arte, à arte a sua liberdade".
Apesar da grande rejeição que sua obra desencadeou, Klimt conseguiu o apoio de uma camada da alta burguesia, em sua maioria, de origem judia. Foi nestes círculos restritos que conseguiu dar continuidade ao seu trabalho, especializando-se agora como retratista, são destes períodos os quadros "Retrato de Sonja Knips" e "Schubert ao Piano", este último principalmente lhe abriu as portas para diversas encomendas de retratos, gerando uma nova fonte de recursos que possibilitava ao pintor rejeitar as encomendas oficiais e poder assim se aprofundar em seu novo estilo.
Em 1901, Klimt atravessa pela primeira vez as fronteiras de seu país, viaja à Itália onde se apaixona pelos mestres renascentistas, em especial Ticiano. Também fica profundamente impressionado com os mosaicos bizantinos, que vão se refletir em sua obra, tornando-a ainda mais plana e decorativa. É a partir destes mosaicos que Klimt percebe a grande capacidade expressiva contida na utilização do ouro. A partir daí, inicia-se a fase mais famosa de sua carreira, o período dourado.
O Período Dourado
Pela iniciativa de Klimt e alguns pintores seus apoiadores, foi criada a Oficina de Viena. Era uma nova organização de pintores que visava cumprir o objetivo já abandonado pelo grupo Secessão, de unir as belas-artes com as artes aplicadas. Porém, a criação deste novo grupo gerou uma crise interna no Secessão, dividindo o grupo em duas alas. De um lado havia Klimt e seus seguidores, de outro, os artistas que queriam ser somente pintores, sem vínculos com outras artes. Os interesses divergentes não conviveram por muito mais tempo juntos, e após um acúmulo de atritos e divergências, Klimt, juntamente com mais dezoito artistas romperam com o Secessão.
Após a saída dos artistas mais combativos e dinâmicos do grupo, o Secessão entrou em decadência. Seu melhor momento havia acontecido em 1902, quando foi organizada uma exposição comemorativa dedicada à Beethoven. Neste evento foi realizada a chamada "Obra de Arte Total", uma concepção inovadora que transformava completamente o interior da galeria, utilizando-se das mais diversas disciplinas artísticas, como arquitetura, escultura, pintura, artes gráficas, música e poesia. Em uma das salas da galeria estava exposta a monumental obra de Klimt, "O friso Beethoven", concebido como uma batalha entre o bem e o mal, que pretendia ser uma tradução simbólica da "Nona Sinfonia" do compositor alemão. Entre as personalidades que visitaram a exposição estava o francês Auguste Rodin, que apreciou imensamente sua obra.
Após o sucesso do "friso Beethoven", Klimt foi convidado a realizar outra obra monumental, a decoração do refeitório do palácio Stoclet em Bruxelas. O painel foi planejado contendo três partes, sendo que o painel menor é uma peça completamente abstrata, a única desse tipo em toda sua obra. A peça foi finalizada em 1910 e o próprio pintor reconheceu que a obra era "provavelmente a etapa definitiva de meu desenvolvimento da decoração".
É neste período também que realiza suas “obras douradas” mais famosas, como "O Beijo", "Danae" e "Retrato de Adele Bloch-Blauer I", “Judith II”, “As Três Idades da Mulher”, entre outras.
A influência modernista
Após ser dissolvido o Secessão, os artistas vienenses se encontravam novamente no ponto em que estavam na época da fundação do grupo, ou seja, sem espaços para expor suas obras. Visando suprir essa necessidade vital para os artistas, Klimt reúne-se a outros pintores e funda o Kunstschau. A primeira exposição do grupo marca a reaparição dos diversos artistas responsáveis pela revitalização da arte vienense, além da apoteose da fase dourada de Klimt, neste momento já extremamente popular não só na Áustria como também em toda Europa.
Realizando sucessivas viagens durante toda a primeira década do século, deixa-se influenciar pelos diversos vanguardismos europeus. Aproximou-se de outros pintores como Toulouse-Lautrec, Munch, Matisse e Bonnard, que levaram Klimt a ampliar a sua paleta e abandonar o estilo dourado. Neste momento, ele deixou de lado a extrema elaboração dos cenários em virtude imagens ainda mais planas e despojadas, contendo amplas áreas de cor vibrante, além de combinar tons escuros a um colorido mais intenso e variado. São deste período pinturas como "Senhora de Chapéu e Boá de Plumas", "A Virgem", e "A Vida e a Morte". Reaparecem também as pinturas de jardins e diversas paisagens campestres, que demonstram a influência do cubismo que começava a permear sua obra. Esta fase do pintor dura até 1915, ano do falecimento de sua mãe. O fato abala profundamente o pintor e se reflete no escurecimento súbito de sua palheta, além de uma abordagem depressiva dos temas.
Recebe como discípulos e sucessores de sua expressividade os pintores Egon Schielle e Oscar Kokoschka. Schielle, portador de um estilo claramente influenciado por Klimt, mas uma geração mais novo, apresenta entretanto uma visão de mundo muito mais torturada e pessimista, mais vinculado com o expressionismo alemão que com o tranqüilo art noveau de seu mestre. Kokoschka também se destacará futuramente com um precursor direto do movimento surrealista.

Em janeiro de 1918, após sofrer um acidente vascular que paralisou todo o lado direito de seu corpo, Klimt foi hospitalizado onde morreu de pneumonia em 6 de fevereiro, aos 55 anos.