QUEM GUARDA OS SEUS DADOS? PARA REPRESENTANTES DOS EMPREGADOS, O FUTURO DO SERPRO ESTÁ NAS URNAS

Em live do SINDADOS/MG, os ex-conselheiros de Administração do Serpro, Marco Sobrosa e Deivi Kuhn, alertam para o risco de privatização da Empresa, caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno. Já a coordenadora do Sindicato, Rosane Cordeiro, pede mobilização antes e depois do voto
“Só não foi privatizado porque faltou tempo”. A frase é de Marco Sobrosa, que representou os empregados no Conselho de Administração do Serpro de 2020 a 2022. Ele afirma que preço, modelo de venda e estudos técnicos já estavam prontos quando, em abril de 2023, o governo Lula retirou a empresa da lista de privatização.
Sobrosa e Deivi Kuhn, que o sucedeu no conselho, alertam que o risco volta se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, em 25 de outubro. Os dois falaram em live do SINDADOS/MG, em 13 de outubro, mediada pela dirigente Rosane Maria Cordeiro. Para eles, o que está em jogo é uma empresa pública que guarda dados de milhões de brasileiros.

Preço, modelo e cronograma: a venda estava desenhada

Sobrosa lembrou que o anúncio veio em agosto de 2019, no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Em janeiro de 2020, um decreto presidencial incluiu Serpro e Dataprev no Programa Nacional de Desestatização, e o BNDES assumiu a condução. O banco contratou a Accenture para desenhar o modelo e outra consultoria para calcular o valor da empresa. Segundo ele, o preço ficou em cerca de R$ 6 bilhões. “Isso é absolutamente troco para essas empresas estrangeiras comprarem o Serpro”, avaliou.
O cronograma do BNDES previa a venda para o primeiro semestre de 2021, segundo Sobrosa. A pandemia atrasou os estudos, e a data foi remarcada mais de uma vez.

Deivi contou que a operação chegou a ter data definida para fevereiro, caso Bolsonaro fosse reeleito. Em 6 de abril de 2023, já no governo Lula, um decreto retirou Serpro e Dataprev do programa.

O alvo são os dados

Dados valem dinheiro e poder. Quem sabe como as pessoas vivem, quanto ganham e o que consomem consegue vender mais, prever comportamentos e orientar decisões. Por isso, empresas do mundo inteiro disputam informações pessoais, e muitas companhias de tecnologia construíram seus negócios sobre elas.
O Serpro opera sistemas do governo federal que alcançam praticamente todos os cidadãos. Entre eles estão os cadastros de pessoas e empresas da Receita Federal. Quem controla a empresa que cuida dessas informações ganha uma posição privilegiada sobre elas e sobre o funcionamento do próprio Estado.
Segundo Sobrosa, o interesse dos compradores nunca esteve na estrutura física da Empresa. “O interesse de quem quer comprar o Serpro não é pelos seus centros de dados […] mas é pelo que o Serpro tem e armazena, hospeda, cuida, que são os dados”, explicou.
Deivi detalhou o que isso significa para o País. “O Serpro mantém a autonomia do Estado, mantém a capacidade do Estado funcionar”, afirmou. Na avaliação dele, a venda criaria dependência. “Nada melhor do que ter alguém que depende de ti para você poder mandar, desmandar, fazer o que tu quiser com ele”, comparou.
Rosane Cordeiro afirmou que o SINDADOS/MG é contra a privatização porque ela “significa entregar a soberania do nosso povo”.

“Um caminho sem volta”: o alerta para o voto

Os palestrantes ligaram o tema diretamente à eleição. Sobrosa afirmou que, se Flávio Bolsonaro vencer, a venda volta rápido, porque os estudos já estão feitos. “A hora que o novo governo se assumir, esse governo liberal, o Serpro será privatizado e será uma das primeiras estatais, porque tá tudo pronto”.
Ele pediu que os empregados não se iludam e avisou que reagir agora seria mais difícil do que na primeira vez. Na campanha anterior, os trabalhadores procuraram senadores e deputados, mas Sobrosa considera o atual Congresso menos favorável. “Se houver a escolha por um governo liberal, vamos ter a consciência que nós entramos num caminho sem volta”, alertou.
Rosane Cordeiro reforçou o recado. Segundo ela, “a política de privatização está escrita no programa de Flávio Bolsonaro”, e é preciso “enxergar o que está escrito”. Deivi resumiu o momento como uma escolha entre “dois modelos: o modelo de sociedade inclusiva e autônoma e o modelo subalterno que privilegia os ricos”.

O que está em jogo para quem trabalha no Serpro

Sobrosa descreveu o efeito da venda sobre os empregados. “Privatização é dizimar os 7500 empregos no Serpro”, afirmou. Segundo ele, as demissões se concentram nos primeiros meses, e a maioria sai da empresa em até um ano. Lembrou ainda que o Serpro recebeu cerca de 1.500 empregados nos últimos três anos, muitos em busca de estabilidade. Citou risco para a previdência complementar e para o plano de saúde: “Não vai ter plano de saúde pros aposentados”.