A Revolução Artística em 1917

Os poetas e a Revolução de Outubro

Herdeiros de uma das mais ricas tradições poéticas, após serem arrastados pela violência da revolução que sacudiu toda a sociedade russa, os poetas impulsionaram sua própria revolução, e através de seus radicais experimentalismos com a linguagem, tornaram-se expressão do que existia de mais inovador em termos de poesia no cenário artístico da época

Puchkin e o nascimento da grande literatura russa
A literatura russa, que conhecemos hoje como uma das mais importantes da cultura mundial, surgiu como resultado do grande desenvolvimento econômico e cultural que foi impulsionado durante o reinado do czar Pedro, O Grande, na primeira metade do século XVIII. Transcorreu-se então um longo período de gestação que se desenrolou paralelamente à modernização do país. Assim, a melhor e mais madura literatura russa, começou realmente em meados do século XIX, conhecido como o "século de ouro da poesia russa". A partir da geração de Alexander Puchkin ocorreu uma verdadeira revolução na língua literária russa, que encontrou sua maior expressão na obra deste poeta. Em cerca de 20 anos de carreira literária, ele experimentou e se desenvolveu dentro de todos os estilos que a Europa havia criado até então. Começou escrevendo em um estilo classicista francês, depois partiu para o pré-romantismo anglo-saxão, logo após se especializou num romantismo byroniano, e terminou sua carreira dentro de um classicismo próprio dele. É dito pela crítica, que a obra de Puchkin é tão rica que poderia ser considerada um resumo de toda a história da literatura russa a partir dele. Sua obra "A Filha do Capitão" poderia ser vista como um pequeno esboço de "Guerra e Paz" de Tolstoi; "Pique-Nique", seria como um esboço de "Crime e Castigo" de Dostoievski. É dele também o um dos maiores poema épico russo: "Eugênio Onegin", um poema no estilo romântico de Byron.. Com um texto objetivo como em Goethe, o conteúdo, entretanto, é nacional e contemporâneo. Apesar da forte carga emocional de seus personagens, nunca perde de vista os firmes contornos realistas de suas construções psicológicas. Seu personagem, Onegin, é um tipo muito comum em sua época, o aristocrático russo ocidentalizado, com um ar arrogante e pretensioso, inconsciente de sua própria natureza social de "homem inútil". Este será um personagem recorrente em toda a literatura russa do século XIX, com suas diversas variações nas obras de Turguêniev, Goncharov, Tolstói e Tchekov, entre outros. Apesar de ter deixado uma importante obra em prosa, com diversas novelas e contos, é na poesia que realizou sua mais importante contribuição. Morto em um duelo aos 37 anos, era conhecido por seu temperamento arrebatado e contido ao mesmo tempo. Isso se refletiu em uma obra caracterizada pela elegância e concisão de estilo. Apesar dos arroubos emocionais típicos do romantismo, tinha um forte desejo de captar a realidade da vida de seu povo e de seu país, que por ele eram vistos como que sob uma lupa e não somente exaltada de maneira romântica. Essas qualidades fizeram dele, não apenas o símbolo de toda uma geração classicista, como também o principal expoente do romantismo russo, e ao mesmo tempo, o iniciador da tradição realista que se alastraria a partir da segunda metade do século. Apesar de sua grande importância na literatura, sua obra, entretanto, é uma das menos traduzidas, fato que em geral é justificado por "dificuldades técnicas", jogos de palavras e sonoridades empregadas por Puchkin, só presentes no idioma russo, que não resistiriam a uma versão e o tornaria virtualmente intraduzível. Entre suas obras mais importantes poderíamos citar os poemas em prosa "O prisioneiro do Cáucaso", "A fonte de Baktchisarai" e "Os ciganos", além de sua famosa tragédia "Boris Godunov".
Pushkin, que iniciou sua trejatória na juventude como revolucionário, ligado ao primeiro ato da longa tradição revolucionária russa, a revolta decembrista de 1825, inicia, em certo sentido, uma longa tradição russa, a maior do mundo, de literatura social e política, reflexo do lento desenvolvimento da revolução russa que culminaria em 1917.
Séc. XIX: O século de ouro da poesia russa
Na geração posterior a Puchkin, surgiu todo um grupo de grandes artistas que apesar de se expressar inicialmente através da poesia, faria a ponte para o desenvolvimento do estilo típico em que a literatura russa se desenvolveria na segunda metade do século: a prosa. Nesse terreno de transição situa-se o poeta e prosador Mickail Liermontov. Morto também em um duelo poucos anos depois de Puchkin, Liermontov é considerado o poeta byroniano que em temperamento mais se parecia com Byron. Dono de uma personalidade incendiária, Liermontov foi também um satanista fervoroso.
Sua obra mais importante foi o livro "Um Herói de Nosso Tempo", cujo protagonista, inspirado nele mesmo, é uma espécie de Don Juan vigarista e demoníaco. Nele é comum o traço típico dos byronianos russos, o apoliticismo, revelando-se ao contrário, um egocêntrico exacerbado. Por seus personagens menos românticos, criou "heróis" mais permanentes que muitos de seus contemporâneos. Livro seu muito valorizado é a tragédia em estilo elisabetano "O Baile de Máscaras", descoberto apenas em 1913 e encenado com grande sucesso por Meyerhold, dramaturgo da vanguarda russa nos anos posteriores à revolução.
Poetas de gerações posteriores como Alexei Tolstoi, Feth e Apólon Grigoriev, apesar de suas capacidades excepcionais, ocupam uma posição claramente periférica na literatura de seu tempo, completamente dominada pelas novas possibilidades abertas pela nova prosa. Desta maneira, é fácil de compreender a audaciosa iniciativa do poeta Nicolai Nekrassov de procurar criar formas poéticas que se relacionassem com o jornalismo, a única maneira que o poeta viu de ganhar espaço entre a hegemonia dos prosadores. Nekrassov ficou famoso como o mais influente poeta da segunda metade do século XIX. Era o poeta por excelência da Rússia radical, seu maior poema "Quem vive feliz na Rússia?", eloqüente já pelo título, é uma feroz sátira social e política contra a servidão na Rússia. Seu estilo era o de um cancioneiro popular, propositalmente adotado para fins satíricos. São ainda populares poemas, como "Os Miseráveis" e "O Frio". Sua frase mais famosa e polêmica diz que "O papel de embrulho em que é dado um pedaço de pão ao faminto, vale mais que o papel em que foi escrito o ‘Fausto’ de Goethe". Nekrassov, em seu tempo atacou todos os poetas que ele considerava "inúteis", pois "afinal toda a poesia de hoje é mais ou menos inútil", ele costumava afirmar, refletindo a forte tendência social da literatura russa em seu conjunto. Ele, como tantos outros era adepto da filosofia do utilitarismo, e sua vitória na Rússia, trouxe consigo toda uma nova escola de crítica literária. Liderada por homens como Dimitri Pissarev, a crítica utilitarista atacou nomes consagrados da poesia, como o "poeta inútil", Puchkin. Pissarev foi o niilista da crítica literária, isto é, o representante da militância revolucionária na crítica revolucionária, antecipando em praticamente meio século, as concepções revolucionárias defendidas pelos poetas futuristas russos e pelos adeptos do grupo Proletkult.
Depois de Nekrassov, o cenário poético esfriou de vez. Todos os esforços da literatura russa voltaram-se para a prosa, tanto na forma de contos, quanto de novelas e romances, que constituem um enorme patrimônio de literatura crítica da sociedade da época. A partir daí, a poesia ficou relegada a um papel bastante secundário, e como conseqüência, sua qualidade abaixou consideravelmente. As gerações poéticas posteriores repetiam então, palidamente, os assuntos abordados de forma sempre mais brilhante pelos prosadores, adicionando-lhes apenas a métrica e os versos.
A poesia tornou-se assim, uma arte de salão, superficial, formalista e repetitiva. Quadro que só mudaria a partir do final do século, com o surgimento de uma nova e vigorosa geração poética.
O simbolismo e a renovação da poesia russa
O simbolismo entrou em cena na Rússia de maneira canhestra e a primeira geração que apareceu por volta de 1890, surpreendia pelo seu amadorismo. Antes de qualquer coisa, foi necessário que o terreno para a nova poesia fosse preparado. Uma nova tradição poética só foi possibilitada com o surgimento de novas publicações, aberta a novas tendências, como a revista "O Mundo da Arte", lançada em 1898 por Serguei Diaguilev. Para quebrar a resistência das editoras tradicionais, também fundou-se a editora "O Escorpião". A partir daí, criou-se um ambiente favorável e a vitória do simbolismo era uma questão de tempo. O novo estilo conseguiu então se desenvolver plenamente e ganhar importância como renovador da linguagem poética com a geração de poetas que atingiu sua maturidade artística na virada do século. Seus mais destacados representantes foram Andrei Bieli e Alexander Blok. O simbolismo pôde a partir daí adquirir a feição de um amplo movimento de reação idealista às tendências materialistas que impregnavam a literatura da época. Influenciados em grande medida pelo clima decadente das obras do direitista Fiódor Dostoiévski e pela filosofia mística e individualista de Vladimir Soloviov, essa corrente literária que teve início na França, rapidamente ganhou feições próprias na Rússia, se manifestando não apenas na poesia, mas também na prosa, no teatro e na crítica literária, atingindo freqüentemente um alto nível de produção.
Eram exaltadas pelos seus poetas a musicalidade das palavras, o etéreo e as visões místicas. Ao mesmo tempo que teve seu pleno amadurecimento após 1900, encontrou quase que imediatamente uma forte reação no sentido contrário, que representava por um lado o recrudescimento do conservadorismo artístico da direita, e por outro, o compromisso com o mundo real e a situação revolucionária vivida na Rússia já as vésperas da Revolução de Outubro.
Não é por acaso que o representante máximo do estilo seja Alexander Blok, o único simbolista que de alguma maneira conseguiu se ligar às mobilizações sociais de sua época e expressar o violento impacto da revolução sobre a sociedade. Sua obra mais significativa, o poema "Os Doze", está entre os retratos mais expressivos da Revolução de 1917. Não é, porém, um poema que reflete o espírito daqueles que fizeram a revolução. Antes de tudo, é o canto do cisne daquela arte decadente, mística e individualista que se tornou anacrônica depois da vitória da Revolução. Nesse poema, os protagonistas são doze soldados bolcheviques que, caminhando pelas ruas da cidade apavorada, cometem todo tipo de crimes, mas seguem passíveis rumo à libertação do mundo. Atrás deles, o velho mundo burguês, um "cão sarnento com o rabo entre as pernas", à sua frente, o "Nosso Senhor Jesus Cristo coroado de rosas e estrelas". Representante de um estado de espírito que havia ficado para sempre no passado, ao escrever "Os Doze", Blok demonstra o impasse em que estava imersa sua vida e sua arte. Arrastado pela revolução, tentou, à sua maneira, se aproximar dela. Em conseqüência se desligou do passado, e ao fazê-lo, entrou também em um completo limbo espiritual na medida em que não conseguia compreender a natureza dos acontecimentos que testemunhava. Nas palavras de Trótski, "Blok pertencia à literatura pré-revolucionária, mas recuperou a desvantagem e entrou na atmosfera de Outubro escrevendo ‘Os Doze’. Eis porque ocupará um lugar a parte na história da literatura russa".
Andrei Bieli, outro expoente da poesia simbolista russa, por outro lado, conhecido como o poeta dos grandes êxtases místicos e das revelações, adepto da antroposofia, orientou toda a sua vida para servir às suas idéias religiosas, criando para isso, ele mesmo, sua própria filosofia. Vivendo tão distante da realidade social do país, depois dos grandes acontecimentos que transcorreram à Outubro, acabou se isolando dentro sua concepção mística. Com o passar dos anos, os textos de Bieli foram se tornando cada vez mais delirantes, até não se conseguir mais identificar se uma visão descrita é real, se é um sonho, uma visão ou um delírio dos personagens. E a reação intelectual que se seguiu à decadência do simbolismo, ganhou expressão nos anos imediatamente após a revolução de 1905, quando a reação czarista à mobilização das massas mostrou sua face mais nefasta, e o simbolismo, por conseguinte, sua completa indiferença à realidade política e social do país.