VAMOS FALAR DO FEDIVERSO?

Vamos falar do fediverso. Sim, é um nome que fica um tanto esquisito em português e grande parte das pessoas nunca ouviu nada sobre isso, mas talvez seja uma das tecnologias mais promissoras para resgatar a Internet das mãos de grandes corporações e devolver o seu lado humano e criativo. Então comecemos do princípio.

O fediverso, também conhecido como redes federadas ou mesmo web social aberta, é um conjunto de tecnologias digitais utilizadas para a publicação na Internet. Bom, até aí, nada muito diferente do que já existe hoje. Mas a pegadinha está justamente na explicação do seu nome.

Fediverso vem do inglês fediverse, que é a junção de duas palavras: federated universe (ou, em português, universo federado). E a parte importante aqui é o “federado”. Isso porque, nessa estrutura, cada instância é um “nó” de uma grande rede interconectada por meio de um ou mais protocolos. E todos os nós dessa rede trocam informações e publicações entre si.

O que significa isso na prática?

No fediverso, uma pessoa cria um perfil em qualquer uma das plataformas, disponíveis em servidores espalhados pelo mundo inteiro (as “instâncias” citadas acima) e, através desse perfil, interage com todos os outros perfis disponíveis em qualquer outra instância. Fazendo uma analogia, seria como se a Maria publicasse um vídeo no YouTube, esse vídeo aparecesse na linha do tempo do facebook do João e ele pudesse comentar esse vídeo e o comentário apareceria tanto na linha do tempo do facebook do João quanto nos comentários do YouTube da Maria. Isso tudo a partir de uma única conta para cada.

E um detalhe: o fediverso não é novo. Os seus primórdios datam de 2008, quando Evan Prodromou, um desenvolvedor de software estadunidense, criou a identi.ca, uma mídia social praticamente igual ao Twitter (daí a brincadeira com o nome), mas liberada como um software livre. O diferencial era que essa mídia poderia ser instalada por qualquer pessoa em um ambiente próprio.

Mas essas instalações ainda estavam isoladas umas das outras. Esse problema foi resolvido posteriormente quando o Evan criou o OStatus, considerado o primeiro protocolo de federação de redes.

A partir daí, outras plataformas, também de código aberto, foram criadas. Em 2010, aparece a Diaspora, que ficou bem famosa à época e que tinha um protocolo próprio, diferente do OStatus, mas também capaz de conversar com outras instâncias da própria Diaspora. Logo em seguida, aparece a Friendica (que, na época, se chamava Friendika).
Mas essa mídia tinha um diferencial. Além de um protocolo próprio, ela também “conversava” com os protocolos da Diaspora e o OStatus, iniciando a era da federação real entre diferentes mídias.

E, talvez, o criador da Friendica, Mike Macgirvin (que, depois, também criou a Hubzilla e a Streams) tenha feito a melhor declaração do que deveria ser a Internet, em sua icônica publicação em fevereiro de 2012, Somebody asked me…, onde ele é questionado porque criou a Friendica:

“Mas, se você realmente quer saber, aqui está o porquê… Porque ‘redes sociais’ é um modelo de negócios de 2005. ‘Redes sociais’ estão obsoletas. Quero me livrar delas. Quero derrubar suas pequenas barreiras ridículas e abrir a internet para que as pessoas possam se comunicar com seus amigos sem precisar de uma corporação americana como intermediária. Comunicar-se com pessoas não é um modelo de negócios. É o que fazemos — e é para isso que a internet foi criada. Não para vender coisas. Isso veio depois e estragou tudo.” (tradução livre do texto original)

Ou seja, em pleno 2012, o Mike já defendia algo que hoje, catorze anos depois, se tornou uma questão crucial em relação à Internet. Nunca estivemos tão à mercê de grandes corporações que, com seus algoritmos associados ao processamento de dados massivos das pessoas, é capaz de prever e manipular o comportamento de qualquer uma que use suas mídias. Dessa forma, faz-se urgente a necessidade de um ambiente de interações mais saudável e não manipulável.

O que, aliás, também são características das plataformas do fediverso. Em relação à manipulação, uma vez que o código dos softwares por trás das instâncias é aberto, ele pode ser auditado em busca de qualquer comportamento malicioso. Isso garante transparência e segurança para as pessoas. Algumas mídias, como a Hubzilla, vão ainda mais além e criptografam todo o conteúdo armazenado no banco de dados. Dessa forma, nem o administrador do ambiente tem acesso ao que foi publicado.

Já em relação à saúde do ambiente, as mídias do fediverso não possuem algoritmos guiando a experiência dos seus utilizadores. Você só vê publicações das pessoas que acompanha. E essas publicações vêm em ordem cronológica. Ou seja, você pode parar e voltar quando quiser para a sua linha do tempo sem o risco de perder nada que foi publicado.

Por fim, como cada um pode ter a sua própria instância, isso abre todo um horizonte de possibilidades de comunicação para indivíduos e organizações, que podem ter seus próprios ambientes e liberar a criação de contas somente para pessoas específicas. E, mesmo assim, essas pessoas serão capazes de se comunicar e acompanhar qualquer outra publicação em qualquer lugar do fediverso.

Para saber mais sobre o assunto, a Associação Cultural Alquimídia é uma referência nacional sobre esse tema, com publicações e indicações de instâncias disponíveis. Para um contexto mais geral, temos o Fediverse.Party, que reúne informações de todas os softwares existentes no fediverso atualmente. E já quer experimentar esse novo universo? Temos uma instância brasileira do Mastodon, onde é só chegar e criar sua conta: a Orgânica.